A dignidade humana pede um lugar ao sol*

Como escreveu e cantou o poeta Cazuza, “o tempo não pára”. A vida é cíclica. Nascemos e ganhamos uma rede de amparo para o conhecimento e para conhecer o mundo seja na família, na escola, na igreja, em clubes e entre amigos.

Batalhamos muito para entrar em uma universidade e investimos tempo e dinheiro em nossa formação, seja ela na própria universidade ou em línguas, cursos extracurriculares, participação em eventos etc. Depois vamos lutar por um emprego para atingir nossos sonhos e objetivos. E essa batalha começa antes mesmo de formarmos na universidade, ao fazermos estágios profissionais. Neste momento, temos o primeiro contato com uma mentoria que pode ser formal ou informal.

Muitas pessoas investem ainda mais tempo e dinheiro em uma pós-graduação, mestrado ou doutorado. Afinal de contas, o mercado sempre espera e demanda mais de todos nós. E, de repente, quando temos uma trajetória rica em conhecimentos, conexões profissionais, competências diversas que o universo corporativo privilegia, jogo de cintura e muito tempo dedicado ao trabalho, estamos com 50 anos ou mais. É exatamente neste momento que o mercado nos pune com mão de ferro.

Aqui começa a ser praticado o etarismo, que é um tipo de preconceito que acontece pela idade, parecido com racismo ou sexismo, mas direcionado a pessoas de certas faixas etárias, geralmente as mais velhas. No mercado de trabalho, isso acontece quando acham que alguém é menos capaz ou competente por causa da idade mais elevada. No Brasil, este preconceito é silencioso, voraz e está espalhado em todas as classes sociais e regiões.

Nada contra a troca de pessoas ou a contratação dos mais jovens. Diversidade e oxigenação de equipes é fundamental para termos sucesso, inovação, bons resultados corporativos etc. Quando este movimento não é bem-feito, sem o devido respeito e cuidado com o ser humano, muita gente experiente acaba sendo subaproveitada no mercado. Essa discriminação também mexe com a autoestima, a saúde mental e a qualidade de vida de quem passa por isso, podendo levar ao isolamento e até causar depressão.

No mercado de trabalho, o etarismo aparece quando os empregadores preferem contratar gente mais jovem, achando que os mais velhos são menos flexíveis, não entendem tanto de tecnologia ou custam mais caro por causa dos salários mais altos. Estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta que, em 2030, o Brasil terá a quinta população mais idosa do mundo. Atualmente, há 54 milhões de brasileiros na faixa etária dos 50 anos, quase um quarto da população. Segundo estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV), em 2040, 57% da força de trabalho do País será composta por pessoas acima dos 45 anos. O IBGE prevê que, em duas décadas, as pessoas com mais de 60 anos serão maioria no Brasil.

E para quem gosta de impacto financeiro, aqui vai um dado chocante. No Brasil, o consumo dessa parcela da população chegou a R$ 1,8 trilhão em 2024, e poderá aumentar até para R$ 3,8 trilhões até 2044, representando 35% do consumo total no país. Esse é um dos resultados do estudo recente “Mercado prateado: consumo dos brasileiros 50+ & projeções”, da Data8.

É fundamental combater o etarismo, estereótipos e estigmas que reforcem a ideia de que o envelhecimento é um processo dinâmico, natural e heterogêneo. Portanto, temos o dever de casa de sensibilizar as gerações mais novas e diversos atores sociais para a preparação de uma velhice construtiva e promover a aproximação de gerações, por meio de relações genuínas e novos pontos de encontro.

Chega a ser um absurdo e um contrassenso não refletirmos sobre soluções inovadoras e criativas como alternativa aos modelos atuais de apoio a pessoas mais velhas. A vida ou a capacidade profissional de uma pessoa não pode ter prazo de validade. É necessário sensibilizar e conscientizar todas as gerações sobre a importância do tempo e da passagem do tempo. A participação e união de pessoas de todas as idades é um pressuposto fundamental na construção ativa de uma sociedade mais próspera, igualitária e coesa.

Por isto, lançamos O Movimento “bstory – A experiência que transforma”. O empreendimento nasce com o objetivo de dar protagonismo e apoio à geração 50+, bem como reconhecer, valorizar e compartilhar experiências, histórias e legados de pessoas e instituições de setores relevantes para a sociedade, tendo como foco e objetivo o bom combate ao etarismo. A dignidade humana pede um lugar ao sol.

*Daniel Marinho é Relações Públicas e sócio fundador do Movimento bstory (www.bstory.com.br).